Papo cabeça: tudo o que rolou na live de ontem sobre Transtorno Bipolar

Ontem a noite, 04/11, fiz uma live no Instagram para falar sobre saúde mental. Eu estava toda preparada, tinha anotações e no dia anterior tinha pedido para que vocês me enviassem questões sobre o tema. Mas a verdade é que eu estou há tanto tempo querendo falar com de forma mais aprofundada sobre o assunto com vocês, que acabou saindo tudo de uma vez.

Mesmo assim foi muito legal, pude esclarecer algumas dúvidas e compartilhar um pouco da minha experiência como alguém que já vive com esse diagnóstico há alguns anos. Prometi que faria um post para organizar os tópicos tratados durante a live e cá estou!

Vamos lá?

O que é Transtorno Bipolar?
Trata-se de um distúrbio mental grave no qual a pessoa apresenta períodos de alternância de humor, que duram dias, meses ou até anos. A doença já foi conhecida como transtorno maníaco-depressivo e sua classificação é CID10 F31.

O Transtorno Bipolar é crônico (não tem cura), mas tem diversas opções de tratamento entre medicamentos e terapias. Não é um transtorno fácil de identificar, e um paciente pode recebe diversos diagnósticos antes de chegar a esse.
Por que eu fico brava quando alguém fala que é bipolar porque muda de humor?
Primeiro porque transtornos mentais não deveriam ser banalizados. E segundo porque não é assim que o Transtorno Bipolar funciona. Esse transtorno se caracteriza por mudanças cíclicas, é verdade que elas podem acontecer subitamente, mas podem durar por um período cuja duração pode variar. Esses ciclos podem ser depressivos ou maníacos.

Quais são os sintomas?
Depressão: humor deprimido, tristeza profunda, apatia, desinteresse pelas atividades que antes davam prazer, isolamento social, alterações do sono e do apetite, redução significativa da libido, dificuldade de concentração, cansaço, sentimentos recorrentes de inutilidade, culpa excessiva, frustração e falta de sentido para a vida, esquecimentos, ideias suicidas.

Mania: estado de euforia exuberante, com valorização da autoestima e da autoconfiança, pouca necessidade de sono, agitação psicomotora, descontrole ao coordenar as ideias, desvio da atenção, compulsão para falar, aumento da libido, irritabilidade e impaciência crescentes, comportamento agressivo, mania de grandeza. Nessa fase, o paciente pode tomar atitudes que reverterão em danos a si próprio e às pessoas próximas, como demissão do emprego, gastos descontrolados de dinheiro, envolvimentos afetivos apressados, atividade sexual aumentada e, em casos mais graves, delírios e alucinações.

Hipomania: os sintomas são semelhantes aos da mania, porém bem mais leves e com menor repercussão sobre as atividades e relacionamentos do paciente, que se mostra mais eufórico, mais falante, sociável e ativo do que o habitual. Em geral, a crise é breve, dura apenas uns poucos dias. Para efeito de diagnóstico, é preciso assegurar que a reação não foi induzida pelo uso de antidepressivos.

Uma pessoa com transtorno bipolar que recusa tratamento pode se tornar violenta?
Existem momentos dentro da mania que são marcados por extrema irritação. É possível sim que alguém nesse estado fique mais agressivo. Mas não é possível dizer de forma generalizada que essa agressividade chegue ao ponto da violência, até porque cada caso é um caso. O que pode ser dito com certeza é que essa agressividade é mais perigosa para o próprio paciente do que para as pessoas ao seu redor.

Todo tratamento para o transtorno bipolar engorda?
Não necessariamente. Porém cada medicação atua de um jeito diferente e cada corpo compreende o tratamento de um jeito diferente. Mas eu digo isso do fundo do meu coração: sem meu tratamento eu não seria a pessoa que sou hoje. E eu prefiro mil vezes ser gorda e ter autoestima, poder planejar um futuro, saber que mesmo em momentos difíceis existe esperança e que eu sempre vou ficar melhor, do que ser a mulher insegura, triste, que não conseguia viver mais do que um dia após o outro e que não via sentido na vida.

Seu tratamento funciona?
Estou fazendo o mesmo tratamento desde 2013, tive muitos percalços, mas a persistência e o apoio incondicional dos meus pais me mantiveram lutando. Continuo alternando ciclos, hoje em dia estou mais entre a depressão e a hipomania, mas tenho acompanhamento médico, faço acupuntura, tenho boa alimentação, tomo meus remédios religiosamente e tive um excelente resultado com terapia cognitivo comportamental. Eu sempre digo que estou em um tratamento muito bem sucedido, porque a mudança na minha qualidade de vida é notável, hoje em dia eu tenho toda uma estrutura que me mantem seguindo em frente mesmo quando não estou bem.

Selecionei alguns links para textos e matérias que mostram o transtorno bipolar de forma esclarecida, eloquente e embasada (clique nos títulos para ler):

Transtorno bipolar é a doença de maior associação com o suicídio

Cientistas brasileiros criam programa para diagnosticar esquizofrenia e transtorno bipolar através do relato de sonhos

Grávidas e bipolares

Dia Mundial do Transtorno Bipolar

Entre a euforia e a depressão – Diversos escritores famosos eram portadores de transtorno bipolar; seus altos e baixos extremos deram origem a grandes clássicos

“Falavam para não me contrariar”: relato de mulher com transtorno bipolar

Transtorno bipolar Reconhecendo mania, hipomania e depressão bipolar

 

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Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Ponto e vírgula

Tem sido muito bom para mim falar um pouco sobre algumas das coisas que passei nos últimos anos aqui no blog. Se você é novo por aqui precisa saber que eu sou bipolar e que o tratamento para lidar com o transtorno virou a minha vida de ponta cabeça. Eu demorei para me abrir sobre isso com qualquer pessoa que não fosse minha terapeuta e meus pais. Quando eu comecei a me aceitar esteticamente vi que de certa forma, mesmo depois de tantos anos, eu nunca tinha realmente aceitado minha condição. Estava mais fácil me ver de fora para dentro. Eu nunca tinha falado sobre isso com amigos e até com a família. Durante muito tempo eu estigmatizei meus sintomas e me afastei de situações que fizessem eu me sentir mais frágil do que eu já me sentia.

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Não é fácil falar para todo mundo ouvir que você tem um transtorno como esse, ainda existe muito preconceito, muita piadinha sem graça, muita preguiça de estender  mão para alguém com tanta dificuldade de alcançá-la. Além disso, nem todo mundo permanece na sua vida quando você você é tão evidentemente neuroatípico, as pessoas tem medo do que elas não entendem.

Eu tenho muita vontade de fazer um post falando sobre a minha jornada entre o diagnóstico até o ponto onde estou hoje. Vocês gostariam de ler algo desse tipo?

 

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Existem muitas pessoas no mundo que lidam com transtornos, entre elas existem ainda mais pessoas que acabam se isolando por não compreenderem que não estão sozinhos , que outras pessoas também passam por tudo isso. Só quem está nessa posição é capaz de compreender o quanto é importante saber que alguém também sente o que você sente. É como se isso validasse coisas que nós não tínhamos mais certeza se eram reais ou não.

Foi assim, buscando validação, que encontrei o projeto Semicolon que acabou se transformando em um viral para lutar contra os estigmas que cercam doenças psiquiátricas, incentivando os participantes a falarem sobre sua condição. A essência do projeto está no ponto e vírgula que representa o momento em que um autor poderia encerrar uma frase, mas ao invés disso decide pausá-la para depois seguir em frente.

 

Uma foto publicada por Rhys (@rhyscovery) em

 

A ideia surgiu em 2013,  mas só recentemente as pessoas começaram a postar sua tatuagens na internet. Amy Bleuel, a criadora do projeto, estima que mais de 1 milhão de pessoas já tenham a tattoo. Bleuel também é uma das pessoas que  que lida com questões relacionadas a depressão, auto-flagelo, vícios, ansiedade e suicídio. “Eu queria honrar o meu pai que se suicidou. Assim como a minha própria história lidando com essas coisas”.

 

Uma foto publicada por Kim (@kim.sa) em

 

Não calem o sofrimento alheio, ele nunca é trivial.

Não se cale, compartilhe sua história.  Vai ajudar outras pessoas, mas principalmente, vai ajudar você.

Eu tive uma terapeuta que me dizia para olhar de frente nossas dores, tirá-las do coração e encará-las de frente, só assim seremos capazes de compreendê-las, de saber do que ela e feita e lutar para ela se vá.

 

O projeto:

www.projectsemicolon.org

Navegue na hashtag #thesemicolonproject no Instagram para ver quantas tatuagens lindas e libertadores já tem por lá!

 

Se você está lidando com a depressão e pensamentos suicidas, procure AJUDA. Você não está sozinho!

 

Se você estiver de conversar de forma mais casual, eu estou aqui também, me procure: ocabide@ocabide.com

 

*imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.