Fechando o zíper

O zíper é sem dúvidas uma das grandes invenções da sociedade moderna, tão genial que nos perguntamos se não deveria ter surgido antes. Quão difícil seria juntar duas tiras dentadas de metal e encaixa-las? Não parece haver algum tipo de ciência complicada por trás disso. Ainda assim o zíper só se tornou zíper em 1917 (quando sua patente foi requisitada por um imigrante sueco em Hoboken – Nova Jérsei).

Agora que o zíper já existe há quase um século, você imagina que ele tenha sido aperfeiçoado para se tornar um bem 100% fidedigno. Mas isso ainda não aconteceu! Ainda existem muitos defeitos nos zíperes por aí. Dentes quebram, puxadores que estouram, etc.

Um zíper quebrado pode deixar uma peça de roupa totalmente inutilizável, por isso consistência e qualidade são indispensáveis para a reputação das marcas. Há décadas confecções que não podem apostar em fechos baratos se voltaram para um único fabricante. A gigante japonesa YKK faz mais ou menos metade de todos os zíperes usados no mundo, são mais de 7 bilhões a cada ano. Como essas três letras maiúsculas, encontradas em todo lugar, dominaram esse nicho da indústria?

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Fundada por Tadao Yoshida em Tóquio, em 1934, YKK é uma sigla para Yoshida Kogyo Kabushikikaisha (que pode ser traduzido como Yoshida Companhia Limitada). O jovem Yoshida era um tradicionalista que desenhou e customizou as máquinas de zíperes quando ele não estava satisfeito com os métodos de produção existentes. Uma a uma, Yoshida levou para sua fábrica todas as etapas do processo de produção do zíper. Em 1998 o Los Angeles Times publicou uma matéria que dizia que a YKK “funde o próprio bronze, mistura seu próprio poliéster,  tece os próprios fios, urde e tinge o tecido para os zíperes assim como forja e molda seus dentes”. Eles fabricam até suas  própria embalagens, além de continuarem produzindo seu próprio maquinário, que é mantido em segredo dos concorrentes. Com cada detalhe da produção dentro da própria fábrica a YKK fica livre das variáveis externas garantindo que a empresa mantenha qualidade e rapidez na produção. (Mesmo com terromoto eo tsunami que abalou o Japão  em 2011, a fábrica se manteve funcionando)

Yoshida tinha um princípio de gerenciamento que ele batizou de “O ciclo da bondade”, que prega que ninguém pode prosperar sem que renda benefícios para os outros. Na prática esse princípio impediu que a empresa  produzisse zíperes de ainda maior qualidade a preços mais baixos. A decisão teria sido intuitiva para qualquer empresário, mas ele manteve seus princípios, o que não deve ter sido fácil. No final das contas o segredo do sucesso da YKK é tão descomplicado quanto é impressionante: zíperes confiáveis, envio dentro do prazo sem falhas, uma grande gama de cores, materiais e estilos e não se deixar abalar por preços mais baixos na concorrência. Fica a impressão de que não teria como a indústria da moda não escolher a YKK.

Um zíper de nylon invisível em tamanho padrão (aqueles que são tipicamente usados para fechar vestidos), custa em média 32 centavos de dólar. Para um designer que cria uma peça cujo custo final de produção gira em torno de $40 a $65, e será vendido por três vezes esse valor (ou mais), simplesmente não vale a pena economizar em um item tão importante. A diferença de custo entre o zíper mais barato e o da YKK não é relevante quando consideradas as margens de lucro.

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Existem centenas de indústrias rivais na China. Elas podem ter um preço ligeiramente mais acessível ou podem se disponibilizar para produzir pedidos de última hora, mas existem empresas de moda na Europa, por exemplo, que não aceitam peças produzidas com zíperes chineses, principalmente porque eles temem que haja chumbo nos zíperes. Ou seja, os zíperes da concorrência não valem a economia, a devolução de peças montadas com zíperes chineses por defeito também é bem comum.

A YKK não dirige seu marleting para os consumidores, ou busca qualquer tipo de publicadade. Você não compra seus jeans ou jaquetas procurando por essas letras no puxador do zíper, e você provavelmente não deixaria de comprar uma peça por saber de qual marca é o zíper. Mesmo assim é uma marca comum, que tem imagem e reputação. Seu público alvo são confecções e a indústria da moda, para quem a YKK tem mais significado.

 

*fonte

**imagens e vídeo: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.