O Paradoxo

Paradoxo

Temos usado determinadas categorias conceituais há um tempão para organizar, classificar e qualificar os objetos nos quais pensamos, sobre os quais nos comunicamos e com os quais nos relacionamos. As categorias conceituais tradicionais são fixas e se apresentam logicamente combinadas em oposições que qualquer criança de dez anos é capaz de reconhecer e verbalizar: bonito/feio, novo/velho, original/cópia, real/fantasioso, natural/artificial, exclusivo/inclusivo. Arrisco dizer que, num primeiro momento e de maneira mais ou menos condicionada, o próprio pensamento humano se encadeia dentro dos limites dessas categorias.

Acontece que o mesmo conjunto de fatores históricos que implodiu a modernidade também confundiu de vez grande parte dessas categorias conceituais ancestrais: os grupos sociais nucleares (como a família, a comunidade e o ambiente de trabalho) tornaram-se cada vez mais voláteis, as ideologias coletivistas (como o socialismo revolucionário) se enfraqueceram, a produção de bens, serviços e a geração de informações foram aceleradas de maneira nunca antes vista e as respostas tecnológicas às demandas culturais deram origem a uma nova arte e a novas formas de comunicação. Com tudo isso, as tais categorias tradicionais foram problematizadas por toda uma nova leva de objetos e situações que não se deixam mais definir pelos conceitos antigos.

Assim, aos poucos, o bonito e o feio vão sendo substituídos pelo exótico. O novo e o velho, pelo retrô e o vintage. O original e a cópia confundem-se na releitura. O real e o fantasioso não dão conta de explicar o virtual. O natural e o artificial misturam-se no protético e o customizado não é nem exclusivo nem inclusivo.

E a moda? Seu discurso contraditório é uma grande fonte de associações inovadoras desse tipo e, se assim não fosse, estilistas, empresários e jornalistas jamais poderiam propor a quantidade gigantesca de experiências, signos e consumo que fazem sua vida profissional e comercial acontecer.

O problema (sempre há algum hahaha!) está, nesse caso, justamente na fonte da solução. Explico o paradoxo: a mesma flexibilidade discursiva que permite à moda gerar uma quantidade incrível de novas categorias conceituais vai, aos poucos, minando a nossa capacidade de acompanhar e SIGNIFICAR as associações propostas. Quer dizer: quanto mais a moda informa e quanto mais ambiciosa suas pretensões comunicacionais se tornam (quer comunicar “tudo” que cria para “todos”, pois a moda hoje é “democrática” etc.) menos compreensível fica, simplesmente porque não temos tempo para absorver a enxurrada de propostas, idéias e conceitos lançados num intervalo cada vez menor.

Isso é ruim, no sentido de ser algo problemático, que deve ser resolvido ou consertado? Não, pois faz parte da própria essência discursiva da moda, mas vai ser interessante estar vivo para ver em quanto tempo teremos uma entropia… e o que farão a respeito quando ela chegar.

* imagem: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Os critérios e a moda

Os critérios e a moda

Poucas coisas parecem mais distantes uma da outra do que critérios objetivos de avaliação e a moda. Assim como a letra cursiva dos médicos e os jargões legais dos advogados, a aparente falta de critérios da moda fornece uma aura mágica de inacessibilidade e confere autoridade de xamã aos estilistas e jornalistas encarregados de resenhar desfiles. Algumas resenhas de desfiles, aliás, são gemas de bizarra e duvidosa beleza: o texto se perde e se encontra numa contínua e desorganizada descrição pontuada, aqui e ali, por adjetivos e interjeições que serviriam, imagino, para emprestar um “toque pessoal e bem-humorado” aos escritos.

“Humor”, aliás, assim como “leveza”, são qualidades muito apreciadas por essas bandas. Existe a percepção e a ideologia de que a avaliação objetiva da qualidade de uma criação estética ou é algo pretensioso demais ou chato demais ou ainda, de modo muito paradoxal, uma coisa que não pode ser ensinada, uma habilidade cuja fonte não pode ser revelada.

Aqui e ali, a moda abraça a si mesma e fortalece o status quo dos mais privilegiados entre seus asseclas toda vez que publica a avaliação de algo como “soberbo”, “exuberante” e “genial” sem explicar exatamente por que o soberbo é soberbo, o exuberante é exuberante etc. Acontece que, fazendo isso, é como se estivessem todos dizendo: “Se você não é capaz de entender por que isso é soberbo, então não deveria estar aqui”. E qual é o problema disso? O problema é que, mandando tanta gente assim para casa mais cedo, o bebê pode estar sendo jogado fora junto com a água suja do banho.

*imagem: reprodução