Peso, beleza e padrão

Olá, gente!
Hoje venho com algo diferente do de costume. Entrei de férias e tive tempo, finalmente, para ler o texto incrível “Eu sou gorda” da Nic, onde ela conta a experiência dela de autoaceitação por estar acima do peso e como foi e está sendo isso.

Decidi compartilhar a minha experiência pessoal sobre o que é estar abaixo do peso. Ou simplesmente chegar ao peso ideal mas as pessoas acharem que eu ainda estou abaixo.

Eu tenho em torno de 1,57m e peso 40 e poucos quilos, tenho 19 anos e uma carinha de 15 (ou menos). Desde de pequena eu era a magrinha, pequenininha da turma. Depois, no fundamental e ensino médio, continuava sendo a amiga magrela, e eu olhava muitas das minhas amigas mais encorpadas do que eu e me sentia mal por conta disso.

É comum achar que só as pessoas que estão acima do peso ouvem comentários desagradáveis a respeito da sua aparência, mas não deveria ser segredo para ninguém que quem é bem mais magra em relação ao resto também ouve. As vezes, como eu, a saúde está ótima, exames perfeitos! Mas ainda vai ter aquela pessoa que acha que você tem algum tipo de distúrbio alimentar, o que é algo sério, e não é legal ouvir esse tipo de coisa. Ainda vão ter aquelas pessoas que vão falar “nossa, você não come nada”, “nossa, como você está magra, precisa comer”. Adivinhem? Eu como!!! Eu cuido da minha saúde e estou super bem!!!

A maioria dos meus amigos são homens, então sempre ouço comentários do tipo “putz, como ela é gostosa” para se referir a algumas mulheres, e, bem, as vezes eu paro e penso “cacete, devo estar muito mal”. Mas depois penso “porque eu deveria me importar com isso? Eles acham ela gostosa, que bom, há quem goste de mim assim.”

Uma vez, no meu segundo ano do ensino médio, eu estava indo para um parque aquático com a escola, e no ônibus ouço um comentário em um tom nada legal: “Nossa, sério? Eu prefiro pegar uma gordinha  do que uma magrela.”(não lembro se foram exatamente essas as palavras). Eu entendo que cada um tem suas preferências, mas as vezes o tom que a gente usa pode mudar muita coisa. Isso grudou na minha cabeça durante muito tempo, eu pensava “porque diabos eu preciso ser assim?!”, mas depois de algum bom tempo, eu parei pra refletir “peraí, ele é igualmente baixinho e magrelo como eu, ele poderia ter o mínimo de respeito pelos ‘seus iguais’, ele não é nada mais que uma versão masculina minha. Ou, ao menos, use um tom diferente ao falar isso, e foi quando me senti um pouco melhor.

Hoje em dia, no segundo ano da faculdade, eu já me sinto muito melhor em relação ao que eu sou.  Eu sei que não me alimento mal, que eu faço o que devo por mim e que meu peso não atrapalha minha vida (a não ser pra achar calça, SIM, é difícil achar calça quando seu tamanho é 34)!

Eu já fiz dieta pra engordar, ganhei em torno de 4/5kg, mas hoje estou bem e não vejo mais essa necessidade. Eu precisava comer de 2 em 2h, o que para alguns pode parecer legal, mas não é. Não é legal ter que ficar controlando o horário para ver quando eu preciso comer de novo. Já deixei avisado que eu não me submeto mais a isso. É simplesmente chato e eu não preciso disso.

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Primeiro ficava aquela coisa na cabeça de que eu estava super fora dos padrões, que nada estava certo, que eu precisava fazer algo, mas a cabeça muda. Agora eu simplesmente gosto de não ser o padrão, eu sei que não tem nada de errado. Me chamam de magrela – não que isso seja muito legal, pra mim pessoalmente – e eu só penso: “ok, mas eu espero que você já tenha, pelo menos, olhado para minha bunda, porque isso eu sei que eu tenho. Não é imensa, mas ta proporcional a mim e ta bonitinha. Beleza? Obrigada!”. Eu gostaria sim, e muito, de ter seios maiores. Porém, entretanto, todavia… A esperança é a última que morre! hehe

Eu parei no tempo, no estilo Twiggy de ser, inclusive com aqueles olhos grandes e super legais. Sou magrinha, não tenho biotipo pra ser gorda, gostosona e curvelínea. Não tenho, é simples assim! Nunca vou ter a bunda da Kim Kadarshiam e estou bem assim! Tenho lá meus deslizes, mas quem não tem?

Twiggy

Aprendi que beleza é relativo, que o conceito do que cada um acha bonito é diferenciado, tanto dentro do nosso próprio país como nos outros. E isso é fácil de perceber. Quando comento com minhas amigas sobre alguém que acho bonito e elas discordam: ta aí! É relativo! Eu acho bonito, elas não! E sempre vai ter alguém que vai gostar de você da forma que você é, e isso você pode acabar descobrindo das maneiras mais estranhas possíveis! E ainda bem que é assim! Tem, inclusive, um documentário super interessante do Discovery Channel que fala sobre A ciência do sex appeal, ele está completo no Youtube e eu super recomendo assistir!

A sociedade, principalmente a mídia, tem toda aquela coisa de imposição de padrão e daquilo que é bonito, daquilo que devemos aceitar como o “normal”, e acho que o melhor que podemos fazer é não nos deixarmos levar por toda a lavagem cerebral. É como uma lobotomia, transformar as pessoas em vegetais, que vão só aceitar aquilo por ser mais fácil e porque muitos outros estão fazendo. Mas as pessoas tem opiniões, as pessoas pensam; e a melhor coisa que podemos fazer, pelos outros e por nós mesmos, é nos mantermos conscientes daquilo que a gente quer para a gente e para o mundo.

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Eu me sinto bem melhor comigo hoje, eu sei que penso por mim, que minha opinião é formada e dita, que o que eu acho bonito e legal pode não ser o que é bonito e legal para o outro e assim vivemos!

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Nos seus deslizes de autoconfiança, para e pensa naquilo de melhor que você tem a oferecer e, que talvez, os outros não tenham, ou poucos tenham! O mundo é legal porque somos diferentes! Meus amigos costumam me chamar de louca com uma frequência relativamente alta, e sempre levo como um elogio, afinal, qual a graça de ser como todo mundo?

Beijo para todos! (:

*imagens: reprodução

Estudante de psicologia, fanática pelas mentes mais loucas imagináveis. Adoro um bom livro, um ótimo filme, fones de ouvido e uma música pra dançar.

Eu sou gorda

No ano passado eu fiz uma série de posts no Instagram, e aqui no blog, sobre a minha saga para perder peso com o método Dukan. Se você acompanha O Cabide deve se lembrar do que eu chamava de #projetonicmenos30, que consistia em postagens e updates sobre minha alimentação, com receitas, metas e conquistas dentro do desafio de perder 30 quilos.

Eu permaneci na dieta, com alguns vários delizes, entre janeiro de 2014 e março de 2015. Eu sempre desistia, já que é uma dieta extremamente restritiva, mas sempre me sentia tão culpada por não cooperar com a minha perda de peso que acabava voltando, até o meu corpo não reagir mais ao método. Depois disso tentei fazer dietas mais brandas, tentei também a Reeducação Alimentar e o método Atkins. Eu não tenho dificuldades para perder peso, no período em que permaneci com o método Dukan perdi quase 20 quilos (mesmo sem obedecer sempre os limites da dieta). Mas a minha mente estava saturada, eu estava estressada e não conseguia mais ver benefícios em emagrecer. Isso tornava qualquer tentativa para mudar minha alimentação e criar novo hábitos – e atingir o que eu realmente achava que era o meu objetivo – em tortura física e psicológica.

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Como muitas pessoas da minha idade, eu já fui bem magra. Perigosamente magra, inclusive. Lidei com problemas com o meu peso desde a infância até mais ou menos os 19 ou 20 anos. Fazia check ups constantemente, sempre estava anêmica e vivia tomando vitaminas. Assim como para me manter magra, a ansiedade e a compulsividade tiveram um grande papel no meu ganho de peso, mas foram os antidepressivos (que passei a tomar aos 16 anos), o fator definitivo para para que meu corpo mudasse.

Aos dezenove passei a fazer um tratamento mais sério com um psiquiatra altamente recomendado (é claro que ele era um pulha e o tratamento não me ajudou em nada), poucos meses depois do início do tratamento eu comecei a ganhar peso de verdade, e só parei agora. A quantidade de peso que ganhei era pequena, mas para alguém que nunca tinha pesado mais do que 49 quilos tudo parecia drástico, foi aí que passei a ter uma relação conturbada com o peso.

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Permaneci com essa neura até os 24 anos, durante esse período eu não usei uma peça de roupa maior do que o tamanho médio, minha barriga era reta e os braços eram finos. Mesmo assim eu vivia fazendo dietas malucas e nada do que me dissessem sobre a minha aparência era relevante. Eu só enxergava os números na balança e me achava imensa de gorda.

Até esse ponto eu nunca tinha me achado bonita, portanto me achar gorda era tudo o que faltava para viver constantemente insegura, me manter afastada de amigos e longe de ocasiões que me forçassem ao convívio social com qualquer pessoa, fosse conhecido ou estranho.

Aos 24 anos de idade fui diagnosticada com o Transtorno Bipolar e a reação do meu corpo aos estabilizadores de humor foi ainda pior do que quando eu comecei a tomar antidepressivos. Ganhei mais peso e vi minha vida virar de cabeça para baixo, principalmente alguns anos depois quando associou-se ao meu diagnóstico o Transtorno Borderline e o Carbolitium foi introduzido ao meu tratamento. Engordei 8 quilos nas primeiras duas semanas, ainda que minha médica relutasse em afirmar que o ganho de peso era relacionado ao uso de tal medicação (realmente o ganho de peso pode não ser relacionado com a medicação, no entanto conversei com muitos pacientes que, assim como eu, enfrentaram ganho de peso considerável após começarem a tomar o Lítio).

Na época do segundo diagnóstico tive uma crise e passei meses isolada em recuperação. Durante este período engordei mais quase 20 quilos, tive acne cística e perdi meu cabelo, que voltaria a crescer mas jamais seria o mesmo. Eu acho que era por isso que o #projetonicmenos30 era tão importante para mim, eu não conseguia me ver como uma sobrevivente e a imagem que eu via refletida no espelho ainda era de dor.

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Eu passei por tudo isso e mesmo assim até o começo desse ano eu ainda achava que tinha que emagrecer. Queria fazer redução mamária, procedimentos no rosto (ganhei algumas linhas de expressão e as pálpebras caíram um pouquinho durante o período de reclusão involuntária), etc. Eu não me aceitava de jeito nenhum!

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Eu não sei exatamente como eu cheguei até aqui. Me lembro de um dia olhar no espelho e pensar “Por que eu não posso ser como sou?”, e isso doeu. Mas esse pensamento permaneceu em minha mente e eu decidi me arriscar mais, experimentar mais, conhecer gente nova, sair com as amigas e conversar mais sobre a vida com as pessoas ao meu redor.

Saber o que as pessoas que conheço (a pouco ou muito tempo) pensam de mim foi uma experiência tão reveladora e tão cheia de amor que abriu a porta para que eu me aceitasse mais, para que eu percebesse mais o meu valor. Tendo isso tudo comigo ajudou para que eu de fato quisesse que as pessoas me notassem mais e pensassem mais coisas sobre mim. Aos poucos eu comecei a me achar bonita, e isso se refletiu no modo como me visto, na sequencia passei a valorizar o corpo, gorda mesmo, com todas as curvas e cicatrizes que a vida me deu, e acabei  me surpreendendo pois isso fez de mim uma pessoa mais sexual do que havia sido em toda minha vida.

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Eu ainda estou passando pelo processo de aceitação. Esse não é o tipo de coisa que acontece de forma rápida ou fácil. Todo dia eu aprendo algo novo sobre mim. Recentemente aprendi que eu tive que aceitar tudo o que eu achava feio para me sentir bonita como nunca havia me sentido.

Uma foto publicada por O Cabide (@ocabide) em

*eu, hoje, prestes a colocar este post no ar

Dois anos se passaram desde a minha crise, desde que tudo ficou mais complicado e eu tive que recomeçar, e é impossível evitar o pensamento de que eu perdi esses dois anos me escondendo, me sentindo marcada e feia. Perdi todo esse tempo sentindo que não era merecedora de amizade, sucesso e amor. Foram quase 800 dias sendo responsável por tudo aquilo que fez eu me sentir sem valor. Que eu te sirva de exemplo: LIBERTE-SE!

Cada um de nós vai trilhar um caminho único para a aceitação. Para alguns vai demorar mais, para outros vai doer mais, e ainda tem aqueles que vão cair e levantar muitas vezes. Você não vai acordar um dia e pensar que não precisa ser magra (o) para ser bonita (o) ou feliz, antes disso provavelmente ainda vai rolar muita dieta, muita culpa, um pouco de sucesso, meia dúzia de elogios, mais um escorregão, fome de doce, sede de Coca Cola,  além da frustração que nos acompanha quase que diariamente.

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A sociedade vai me aceitar porque eu me aceitei? – Não

Eu não vou enfrentar preconceitos pois tomei a decisão de parar de fazer dietas? – Minha própria família ainda luta para aceitar que eu não quero mais emagrecer.

Eu vou prejudicar a minha saúde? – Faço check ups regularmente e todos tem resultados exemplares.

Eu não vou mais me preocupar com a gordofobia? – Agora essa militância também é minha e vou lutar contra a gordofobia com unhas e dentes.

Você precisa se aceitar porque eu me aceitei? – Ninguém vai te obrigar a nada, se você quer continuar com as dietas, continue. O mais importante em tudo o que eu aprendi é que a decisão tem que partir de nós. Não seja gorda, nem magra, por causa dos outros.

A culpa por eu não ter me aceitado quando engordei é minha mesmo, ou é da sociedade? – Eu cresci em uma família de gordos que querem ser magros, ao todo já tenho 4 parentes que se submeteram a cirurgias bariátricas. Logo, é inevitável fugir do estigma de que ser magro é melhor e mais bonito. Ao mesmo tempo eu sempre tive acesso a informação, eu já sabia que eu não precisava ser magra para ser bonita, eu só não sabia como aplicar os conceitos que o feminismo me trouxe em minha própria vida, e eu sou a responsável por isso.

Você não precisa se preocupar, afinal homem gosta de ter onde pegar! – VAI SE FODER! Desculpa, mas jamais diga isso para qualquer mulher. Eu me aceitar não é um favor para mim, e definitivamente não é um favor para homens, seja lá o que eles gostam de pegar.

E já que eu respondi essas perguntas com tanta honestidade, façam-me um favor e não me chamem de gordinha, fofinha, gordelícia, exuberante, etc. Eu sou gorda e isso não é xingamento.

 

*imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.