Os critérios e a moda

Os critérios e a moda

Poucas coisas parecem mais distantes uma da outra do que critérios objetivos de avaliação e a moda. Assim como a letra cursiva dos médicos e os jargões legais dos advogados, a aparente falta de critérios da moda fornece uma aura mágica de inacessibilidade e confere autoridade de xamã aos estilistas e jornalistas encarregados de resenhar desfiles. Algumas resenhas de desfiles, aliás, são gemas de bizarra e duvidosa beleza: o texto se perde e se encontra numa contínua e desorganizada descrição pontuada, aqui e ali, por adjetivos e interjeições que serviriam, imagino, para emprestar um “toque pessoal e bem-humorado” aos escritos.

“Humor”, aliás, assim como “leveza”, são qualidades muito apreciadas por essas bandas. Existe a percepção e a ideologia de que a avaliação objetiva da qualidade de uma criação estética ou é algo pretensioso demais ou chato demais ou ainda, de modo muito paradoxal, uma coisa que não pode ser ensinada, uma habilidade cuja fonte não pode ser revelada.

Aqui e ali, a moda abraça a si mesma e fortalece o status quo dos mais privilegiados entre seus asseclas toda vez que publica a avaliação de algo como “soberbo”, “exuberante” e “genial” sem explicar exatamente por que o soberbo é soberbo, o exuberante é exuberante etc. Acontece que, fazendo isso, é como se estivessem todos dizendo: “Se você não é capaz de entender por que isso é soberbo, então não deveria estar aqui”. E qual é o problema disso? O problema é que, mandando tanta gente assim para casa mais cedo, o bebê pode estar sendo jogado fora junto com a água suja do banho.

*imagem: reprodução