Livro do dia: Eu quero aquele sapato!

Sim mulheres amam sapato.

Sim isso pode se tornar em uma obssessão.

Sim, nós temos plena consciência sobre estes fatos.

Temos tanta consciência que já até existe leitura sobre nosso vício/paixão/obssessão!

Eu quero aquele sapato!

A autora Paola Jacobbi escreveu o livro Eu quero aquele sapato! – Tudo sobre uma obssessão feminina, o livro conta a historia de diversos modelos de calçados e descreve o fascínio por esse acessório. “O sapato de salto alto é o objeto que mais diferencia os homens das mulheres da nossa espécie. Só para esclarecer: você já viu algum transexual de sapatilhas? E por mais que se diga que os homens do novo milênio se tornaram grandes narcisistas cheios de vaidade, ainda não os vimos de salto agulha.” diz Paola.

O objeto da paixão feminina tem estado presente na história da humanidade desde seus primórdios, em algumas pinturas rupestres, já se viam calçados confeccionados com peles de animais, olha aí o animal print como tendência desde o início da civilização!

Não tem jeito, o amor por sapatos está instinto da mulher que cria modas e mitos em torno dos sapatos, apaixonando-se por sandálias e botas, saltos assassinos e sapatilhas ultra confortáveis.

Confira um trecho do livro:

“Em italiano, minha língua materna, para dizer que uma pessoa não vale nada, se usa a expressão “metade de uma meia”. Metade de uma meia, nunca metade de um sapato. E há uma razão para isso: o sapato é uma sinédoque, a parte pelo todo (ou seja, a mulher que está em cima dele). No meu país, que tem forma de bota e é terra dos melhores sapateiros do mundo, não se rebaixa um sapato, nem por insulto.

Em italiano, também falamos: “Meu moral está abaixo do sapato”, para dizer que estamos tão pra baixo, que nem o sapato tem forças para arrastar nossa alma.

Dizemos “tirar o sapato de alguém”, que significa passar a perna, levar vantagem sobre o outro, tirando os dois objetos indispensáveis para que se “siga em frente”.

Dizemos: “Não é digno nem de amarrar o sapato dele”, uma humilde honra para aqueles que mereceriam mais.

Dizem que alguns políticos napolitanos, nos anos 50, presenteavam seus potenciais eleitores com um único sapato, dando o outro pé só depois da eleição. Porque o sapato é o simulacro perfeito do casal, como evidencia tristemente a expressão de muitas mulheres abandonadas: “Me deixou como um sapato velho”, já que o sapato velho é o símbolo do objeto inutilizável. Ainda mais quando resta só um pé. Nesse estágio, sapato ou mulher não fazem a menor diferença.

Em italiano, também se diz “falar com os pés”, “escrever com os pés”, “agir com os pés”. Ou seja, muito mal, sem atenção, sem boa vontade ou conhecimento de causa. Essa conotação negativa nasce da contraposição entre as mãos (nobres) e os pés (ignóbeis). É um arcaísmo que acredita serem as mãos mais próximas da mente e do coração, ao passo que os pés ficam lá embaixo, meios de transporte acéfalos.

Em inglês, em compensação, é evidente que os calçados (e, portanto, os pés que abrigam) são o fundamento da personalidade de quem os usa. De fato, fala-se em “se colocar nos sapatos” de alguém. E considero essa expressão muito feliz. Imagine só: calçar o sapato de alguém é realmente um gesto íntimo, muito mais íntimo do que pegar uma roupa emprestada.

Para as mulheres, em especial, é algo tão íntimo, que é um dos primeiros gestos que fazemos quando crianças, assim que conseguimos nos manter em posição ereta. Mal queremos nos sentir “grandes”, e já colocamos o sapato da mamãe, de preferência de salto. Assim, subimos em um pedestal que imediatamente enaltece nossa feminilidade. Aquele sapato “roubado”, ainda que por poucos instantes, nos faz crescer, em todos os sentidos.

Os psicanalistas explicam que se trata de um ritual de “projeção”, mas eu me lembro dele como um momento mágico. Todas as fantasias que usávamos para brincar de casinha começavam ali.

Para os adultos, ver uma menina de sapato de salto alto é algo doce e cômico, mas, para a menina, representa a entrada em um mundo de aspirações e sonhos. Sentir aquela extremidade liliputiana e gorducha navegando pelos objetos com que a mamãe leva a si mesma para passear cria na menina a ilusão de que, em breve, ela também poderá fazer aquelas coisas “de adulto” que, nessa idade, são proibidas.

Sigmund Freud diria que a apropriação infantil do sapato materno é quase uma tentativa de seduzir o pai, o desafio, por parte da criança, de assumir o papel da mãe.

E depois? Depois crescemos de verdade, atingimos a mesma altura da mãe, começamos a distinguir a nossa personalidade, comprando sozinhas o primeiro sapato. Quando crescemos, queremos que os sapatos nos representem. O interessante é que eles irão nos definir para sempre. Eles denotam idade, estado de espírito, desejos para os vários momentos da vida e, até mesmo, do dia. O sapato conta tudo sobre uma mulher.

A atriz Penélope Cruz confessa: “Nunca consegui estudar um novo personagem sem antes escolher, junto com o diretor, o sapato que usa a mulher que iremos levar à tela. Tudo começa lá embaixo.”

Então, a pergunta é: do que falam as mulheres quando falam com os pés?”

Eu quero aquele sapato! Tudo sobre uma obssessão feminina.

Autora: Paola Jacobbi

Editora: Objetiva

*imagem: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Bem-estar é o novo luxo

Nós somos de uma geração que vive num mundo onde tudo é possível, tudo é instantâneo e inúmeros paradoxos são criados por conta do excesso de informação. mas somos sem dúvida os ícones do novo futuro, do novo estilo de vida. De como tudo começará a nascer e como tudo começará a morrer. Do absolutamente e brilhante novo a escuridão do obsoleto.

Lembrei-me então dessa entrevista dada por Gilles Lipovetsky para a Folha de São Paulo, onde ele explica o comportamento de consumo e do luxo na atualidade:

“O sociólogo francês Gilles Lipovetsky conta como a era do hiperconsumo está transformando nossos conceitos e vontades”

Gilles Lipovetsky

O sociólogo francês Gilles Lipovetsky, 66, tornou-se popular por escolher o consumo, a moda e o luxo como objetos de estudo. De jeans e sandálias, o autor de “A Felicidade Paradoxal” e “O Império do Efêmero” recebeu a reportagem na cobertura de um prédio na zona sul de São Paulo, onde foi hospedado.

Na cidade para um fórum mundial de turismo, Lipovetsky veio falar sobre o “consumo de experiência”.
Abaixo, fala também da obsessão pela saúde e afirma: bem-estar é o novo luxo.

Folha – O que é “consumo de experiência”? 

Gilles Lipovetsky – Vai além dos produtos que podem me trazer esse ou aquele conforto, ou me identificar com essa ou aquela classe. As razões para escolher um celular, hoje, vão além das especificações. Queremos ouvir música, tirar fotos, receber e-mails, jogar. Ter vivências, sensações, prazeres. É um consumo emocional.

Então, o que é o luxo, hoje?
O luxo, apesar de ainda existir na forma tradicional, também está mudando.
Quando buscamos um hotel de luxo hoje, não queremos torneiras de ouro, lustres. O luxo está nas experiências de bem-estar que o lugar pode oferecer. Spa, sala de ginástica, serviço de massagem. O bem-estar é o novo luxo.

Como consumir bem-estar?
Nos anos 60 e 70, quando o consumo de massa possibilitou que famílias de classe média se equipassem com produtos, o bem-estar ainda era medido em termos de quantidade. Hoje, o que está na cabeça das pessoas é o bem-estar qualitativo: a tal qualidade de vida. O que inclui a qualidade estética.

Qual a relação entre busca de bem-estar e uma sociedade mais e mais “medicalizada”?
A obsessão com a saúde e a prevenção é o lado obscuro do hiperconsumismo, gerador de ansiedade quase higienista. A quantidade de informação disponível torna o consumo complicado. Na alimentação, os consumidores estão ávidos pela leitura dos rótulos: quais são os ingredientes, de onde vêm, podem causar câncer, engordar? Há 40 anos, íamos ao médico uma vez por ano, se muito.
Hoje, um indivíduo faz até dez consultas por ano. O consumo de exames, para nos fazer sentir “seguros”, cresce exponencialmente. Sintoma do hiperconsumismo: queremos comprar nossa saúde.

Como vê as campanhas contra o cigarro e a obesidade?
O hiperconsumidor está preso num emaranhado de informações e ele tem muitas regras a seguir. Parar de fumar faz parte da lógica da prevenção. É um sacrifício do presente em prol do futuro.
No hiperindividualismo, a gestão do corpo é central. Esse autogerenciamento permanente explica, também, a onda do emagrecimento.
Expor-se ao sol é arriscado, mas é considerado bonito ter a pele bronzeada. Privar-se de comer é privar-se do prazer. É um paradoxo que todos vivem e, por isso, no caso dessas mulheres subjugadas ao terrorismo da magreza, elas sentem culpa. As regras são contraditórias.

Qual é a saída para toda essa ansiedade?
As compras. Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão ao shopping center.
Comprar, ir ao shopping, viajar -são as terapias modernas para depressão, tristeza, solidão. Você pode comprar “terapias de desenvolvimento pessoal”. Um fim de semana zen, um pacote de massagens. Todas as esferas de vida estão subjugadas à lógica do mercado.

Por que as pessoas não se sentem felizes?
O hiperindividualismo aparece quando nossa sociedade nega as instituições da coletividade. A religião, a comunidade, a política. Os deuses são os homens. O indivíduo é um agente autônomo que deve gerenciar a própria existência. Esse indivíduo pode fazer escolhas privadas -que profissão fazer, com quem se casar, o que comprar- mas está submetido às regras da globalização econômica de eficácia, de produtividade, juventude, consumo. O acesso ao conforto material, enquanto sociedade, não nos aproximou da felicidade. Há tanta ansiedade, tanto estresse, tanta angústia e tanto medo que a abundância não consegue proporcionar um sentimento de completude.

Consumimos para esquecer?
Também. Mas há um outro lado. Desenvolvemos o que eu chamei de “don juanismo” [ele cita o personagem “Don Juan”, da ópera de Mozart, que “conheceu” 1.003 mulheres]. Todos nos transformamos em Dons Juans.
Somos todos colecionadores de experiências. Temos medo que a vida passe ao largo.
Existe um senso comum que nos diz que se não tivermos vivido tal ou tal experiência, teremos perdido nossa vida.
É uma luta contra o tédio, uma busca incansável e viciada pela novidade, pela fuga da rotina.”

ENTREVISTA REALIZADA POR IZABELA MOI – EDITORA-ASSISTENTE DA ILUSTRÍSSIMA 

FOLHA DE SÃO PAULO

CADERNO EQUILÍBRIO

28/09/2010

*imagem: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.