Guilherme Rodrigues

Fazia muito tempo que O Cabide não trazia alguém para sentar na nossa poltrona, mas voltamos com uma entrevista que adorei fazer, por carinho ao entrevistado e pelo talento que ele tem.

Conheci Guilherme Rodrigues quando fui avaliadora da sua banca de avaliação final no TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) do curso Design de Moda da Belas Artes em dezembro de 2010.

Já tinha lido sua monografia e visto seu book de criação, que me foram enviados antecipadamente (e que guardo até hoje), e sinceramente não sabia o que esperar.

Seu tema era o Barroco Mineiro, sua coleção tinha como público alvo Drag Queens.

Apesar de ter achado o conteúdo de sua monografia ótimo, ainda tinha muitas dúvidas sobre a coleção e ansiava para ver o desfile ao vivo e conhecer o responsável por ideias tão inusitadas.

O desfile passou, correu tudo bem, mas só na sala de avaliação me dei conta da grandiosidade do trabalho que ele havia feito. Habilidoso, Guilherme havia escolhido tecidos e estampas lindos, e montou peças de cabeça incríveis para acompanhar os looks que apresentou.

Inseguro com relação a sua posição no mercado, aconselhei, de coração, que Guilherme apostasse em seus dotes como figurinista. Ao que tudo indica, deu certo.

Hoje, Guilherme é figurinista da cantora e queridinha do Tecnobrega, Gaby Amarantos, essa parte da entrevista o Gui queria que eu resumisse e editasse, mas acho importante que vocês conheçam a história completa de como ele investiu e se jogou de cabeça em uma possibilidade de trabalho.

Trouxe ele para nossa poltrona para que ele nos falasse mais sobre seu trabalho e sua evolução, pois tenho certeza que os caminhos pelos quais Guilherme tem passado servirá de inspiração para muitos cabideiros.

Nicole Duarte: Como você decidiu que queria a moda como profissão?

Guilherme Rodrigues: Bem, desde pequeno eu sempre tive interesse por tudo o que envolvesse arte. Desde essa época eu já desenhava vestidos. Meus desenhos de criança sempre tinham uma mocinha com um vestido diferente. Na adolescência, eu tive a dúvida entre artes plásticas e moda, mas com entre os 16 e 17 anos eu decidi que seria moda mesmo.

ND: Como foi sua experiência na faculdade de moda?

GR: Foi uma experiência boa, adquiri mtos conhecimentos, contribuiu mto para minha formação cultural e profissional. No entanto, como eu sempre tive gosto pelo diferente, pelo mais ousado, eu percebia que algumas pessoas ainda relutavam em aceitar o que eu fazia como moda. Muitas pessoas interpretavam meu trabalho como algo carnavalesco, e diziam que eu não acharia um nicho no mercado.

ND: Quais são suas principais referências? Quem inspira seu trabalho?

GR: Bom, como vc viu no meu TCC, eu gosto muito de arte barroca, e isso acaba influenciado muito meu trabalho. As características do período tem haver com a maneira que crio, com toda a história da dualidade, da maneira dramática de ver as coisas, do claro e escuro de Caravaggio, do luxo, da estética mais rebuscada. Creio que meu trabalho, independente da proposta que eu esteja trabalhando, sempre terá alguma dessas características. Quanto a estilistas que me influenciam, cito o Walério Araújo, Samuel Cirnansck, André Lima, Lino Villaventura. E internacionais Galliano, Gareth Pugh, Lie Sang Bong, Alexander McQueen e Thierry Mugler.

Guilherme Rodrigues

*Gaby Amarantos usando a primeira peça que Guilherme produziu para ela.

ND: Como começou sua parceria com a cantora Gaby Amarantos?

GR: Minha história com a Gaby começou no ano passado, no dia 17 de abril, na Virada Cultural de São Paulo. Depois do super incentivo que você me deu quando avaliou meu TCC, eu queria achar alguém que eu pudesse vestir, alguém que tivesse uma conectividade com meu trabalho. Meio que por acaso, eu resolvi ficar para assistir ao show dela, e um amigo meu me disse, você viu o estilo dela? Por que você não a procura, quem sabe não dá certo. Fiquei com aquilo na cabeça, vi que ela tinha uma atitude de palco, uma liberdade que me fez pensar que ela se identificaria com as minhas criações. Fiz um croqui e mandei pro email de contato que encontrei no site dela. O assessor dela me respondeu, e me convidou pra conhecê-la no próximo show que ela faria em São Paulo, em uma balada na Rua Augusta, no dia 17 de maio.

Conheci a Gaby, e foi como se a gente já se conhecesse há tempos. Ela adorou o meu trabalho, e eu prometi confeccionar um look para dar de presente a ela. Entretanto, o look não foi feito com base no croqui que eu fiz, esse eu acabei não confeccionando até hoje. Depois que eu a conheci, achei que ela merecia mais (risos).

Fiz um acessório de cabeça e entreguei de presente à ela, ela gostou muito e elogiou o meu trabalho.

Aí no dia 28/08, ela iria ter um show no Centro Cultural da Juventude, e eu propus maquiá-la. No início ela ficou meio receosa, porque ela sempre se maquiava sozinha para os shows, mas no fim ela acabou aceitando. Fiz uma maquiagem com folhas de ouro, e ela gostou demais, disse que nunca tinha visto algo igual, que ficou íncrivel, e foi a partir desse dia que eu senti que a confiança dela no meu trabalho se firmou.

Um mês antes do VMB, ela veio para São Paulo, para comprar matérias-primas para o look dela, ela queria investir nisso, pois ela encerraria a premiação junto com mais duas bandas. Ela me ligou, perguntou se eu conhecia lojas legais, e perguntou se eu não poderia ir com ela. Ela me passou mais ou menos a ideia do que e tinha em mente, ela queria uma roupa que acendesse, que tivesse um conceito de tecnologia, que usasse materiais diferentes. Fomos para o Bom Retiro, levei ela para ver uma malha, que ela já gostou (ela tinha em mente confeccionar uma calça, contudo depois eu sugeri que fosse um macacão), seguimos para a Santa Efigênia, já que ela queria leds, strobos, e alto falantes no peito (a ideia foi dela) e de lá fomos para o Brás. No metrô ela me fez o convite para confeccionar esse look. Me perguntou: “Você quer fazer essa roupa, você tá com tempo, quer se dedicar a isso?”. Aceitei na hora e ela emendou dizendo: “Bem, eu já tinha uma pessoa que faria esse look, mas ele está com muito trabalho, não sei se ele terá tempo de se dedicar, e também eu tô gostando muito do seu trabalho”.

No caminho do metrô até a loja, ela foi me contando que queria uma roupa que fosse inspirada nas Festas de Aparelhagem, que tivesse o conceito do Tecnobrega, e foi me explicando o que era tudo isso, como eram essas festas, enfim todos os detalhes. Entramos na loja e eu já tinha na cabeça como seria esse look, pensei em estruturar os alto falantes em um corset, usar a malha que compramos para criar um macacão que serviria como base para a roupa, e tornaria esse corset em uma verdadeira aparelhagem. Fui direto no material para o corset, eu já tinha visto esse material (um plástico poliuretano holográfico) há algumas semanas, e tinha ficado com ele na cabeça, ela amou tudo e já falou: “Compra o que você achar que tiver que comprar pra esse look!”.

Chegando em casa, me veio na cabeça: Caralho, eu nunca mexi com leds, como eu vou fazer isso tudo funcionar?!?!?! Fudeu! (risos). Aí eu comecei a ver vídeos das festas de aparelhagens, ler matérias sobre o assunto, e aperfeiçoei as ideias iniciais para o look, (detalhe também que até hoje eu ainda não fui ao Pará e não conheço essas festas pessoalmente). Comecei a pesquisar também sobre os leds, sobre baterias, sobre ligações eletônicas, contudo não foi o suficiente para eu conseguir entender. Meu pai me deu algumas dicas básicas, e eu voltei na Santa Efigênia para conversar com os vendedores e tentar conseguir mais informações. A partir daí que começou a minha história com os leds.

Tive muitas dificuldades com esse look, foi um grande desafio, que deu certo, ela amou o resultado! Muita gente elogiou, muita gente criticou, afinal é algo bem diferente, bem conceitual. Eu cuidei de cada detalhe, desde o sapato, que foi confeccionado no Pará pelo Jaime Bessa, até o cabelo frisado (eu havia comprado recentemente um frisador, sugeri de usarmos no VMB, ela ficou receosa, pois nunca tinha usado o cabelo assim, fiz uma mexa no camarim mesmo e ela amou o efeito), foi assim que nossa parceria se firmou de vez.

Guilherme Rodrigues

*Da esq. para dir.: Gaby com Guilherme no camarim do Domingão do faustão, o vestido para o baile da Vogue e a primeira vez que maquiou a cantora.

A partir disso criei muitas peças para ela, criei a saia vermelha com leds que ela usou em apresentações pra divulgar a música Xirley, me aventurei com as fibras óticas, quando criei o vestido que ela usou no baile da Vogue e o colete que ela usou no lançamento da programação 2012 da Rede Globo. Acabei conhecendo outros artistas. Hoje crio figurinos para a Maria Alcina, que é pra mim uma referência, é uma grande artista, é uma honra poder trabalhar para ela.

Guilherme Rodrigues

 *Acessório que Guilherme criou na faculdade

ND: E agora, quais são seus projetos para o futuro?

GR: Bem, ainda não cheguei a conclusões. Tudo aconteceu rápido demais, eu jamais esperaria que com dois anos de formado eu conseguiria tanta coisa. Eu queria muito estudar mais, fazer uma pós graduação, estudar um tempo na França. Claro que penso em ter uma marca, mas ainda não sei se eu lidaria bem com prêt-á-porter. O meu trabalho é muito artesanal, é muita coisa feita à mão. Trabalho muito com bordados, com acabamentos manuais. Mesmo a história do led, cada peça de led é única, tem todo um cuidado com a ligações elétricas, com a funcionalidade e com o design mesmo. Isso em grande escala não funcionaria. Tem também os casquetes, (que foi um talento que descobri ainda na faculdade, nas aulas da professora Thais Graciotti, que me elogiou e me disse para investir nisso). O que eu penso que pode funcionar é uma linha de camisetas, de vestidos que tragam a ideia do meu trabalho, mas isso é mais pra frente. Também penso em uma linha masculina com essa pegada mais conceitual.

Gui, adorei fazer essa entrevista, vibro com cada passo que você dá na sua carreira e morro de orgulho do seu sucesso como profissional da moda.

O Cabide torce por você e vai continuar sempre acreditando no seu talento!

Obrigada e parabéns!

*imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

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