Coisas que você aprende quando perde seu pai

Era um dia como outro qualquer, sempre é né? Saí para resolver algumas coisas, quando voltei, meia hora depois, meu pai tinha morrido. As vezes eu tenho a impressão que o desespero e a dor desses instantes vão me perseguir para sempre.

Eu nunca tinha imaginado minha vida sem meu pai, nunca conversamos muito sobre isso. Ele não estava doente, tinha 60 anos e apesar de nunca ter se cuidado, tinha uma saúde invejável.

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meu irmão, meu pai e eu

Muita coisa aconteceu entre o momento em que encontrei o meu pai até nossas mentes (minha e da minha mãe) aceitarem o que realmente tinha acontecido. Eu entrei em piloto automático, fiz as devidas ligações e só quando a minha cunhada e minha prima/irmã assumiram a situação senti o baque de que a pessoa que geralmente lidava com tudo isso não estava mais aqui. Só chorei de verdade quando minhas amigas chegaram. Como eu estava fazendo de tudo para manter o controle e para a minha mãe desesperada não ver a filha bipolar lidar com a morte do pai, quem sofreu o impacto foi meu corpo.

Aquele foi um dia quente e eu suava em bicas, meu corpo todo tremia, minha cabeça estava dormente e o tempo todo eu sentia como se fosse desmaiar.

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58 dias depois esses momentos as vezes doem mais do que a saudade que não me deixa em nenhum segundo.

Passar por tudo isso tem sido horrível, por mais ajuda e carinho que eu receba, eu perdi meu pai, sabe? É um vazio que nada vai preencher.

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Mas eu aprendi algumas coisas (tenho certeza de que ainda vou aprender muito mais) com essa perda, a dor transforma a gente e de repente a gente se pega vendo o mundo de uma forma que nunca imaginaríamos em outras circunstâncias.

Gostaria de compartilhar algumas dessas coisas que aprendi com vocês:

Você passa a ter medo

Ninguém quer perder um ente querido, na verdade ninguém quer perder nada, quanto mais alguém. Mas quando isso acontece de verdade, você passa a sentir um medo completamente irracional e visceral de perder alguém. No meu caso o meu medo era, e continua sendo, de perder minha mãe também.

Inevitavelmente esse medo fará você reavaliar a sua relação com algumas pessoas, nada pode mudar mais um relacionamento do que a possibilidade de não ter mais alguém perto de você para sempre.

Você não está sozinho

Eu sempre digo que por ser bipolar sou phd em choro e tristeza. Já chorei muito nessa vida, e se já não é fácil explicar a tristeza em certas ocasiões, imagine como é explicar uma tristeza que te acomete todos os dias? Foi assim que aprendi a chorar sozinha. Só que, quando você está chorando por causa de uma dor como essa, se isolar (por mais que esse seja o seu modo automático) pode ser perigoso.  Ainda que você seja uma pessoa emocionalmente independente, seja lá por qual razão, chorar sozinho é uma roubada.

Mesmo que você relute, deixe-se sentir aquela sensação de como é bom ter alguém querendo cuidar ou ficar perto de você. Eu digo isso pois, se você for uma pessoa que resiste a esse tipo de carinho como eu costumo resistir, se imaginar precisando de alguém vai soar absurdo, mas quando isso parte de outra pessoa, mesmo que você não consiga permitir, pode ser um afago diretamente no seu coração. Meu pai sempre me dizia para não chorar sozinha, ele teria ficado orgulhoso de me ver chorando de soluçar nos ombros dos meus amigos na virada do ano e para mim esse choro envolto de tanto amor mudou tudo.

Síndrome de Michael Corleone

Meu pai era uma pessoa incrivelmente generosa e prestativa, de tal forma que para algumas pessoas ele era indispensável. Sabe aquele cara para quem todo mundo liga quando precisa de ajuda? Esse era o meu pai.

Ele se foi e deixou muita gente carente dessa atenção desmedida que só ele sabia dar. De uma forma muito natural quem passou a atender essa demanda de amor foi eu. Muitas pessoas, incluindo a minha mãe e meus avós (de quem ele cuidava com enorme dedicação), passaram a ver em mim essa figura solicita e disposta.

E foi assim que a caçula rebelde se tornou um porto seguro.

Você vai descobrir o que o seu pai realmente pensava sobre você

Eu e meu pai éramos muito próximos, vivíamos juntos e trabalhávamos juntos. Conversávamos sobre muitas coisas, mas raramente falávamos sobre sentimentos, principalmente sobre o que sentíamos um pelo outro (até porque esse era o tipo de conversa que acabava em briga).

Durante o velório e os dias seguintes ao falecimento do meu pai conversei com muitas pessoas com quem eu nunca tinha conversado antes e todas elas tinham o mesmo a dizer: “Seu pai era louco por você!”

Aparentemente meu pai falava sobre mim e sobre todas as minhas conquistas com todos os seus amigos e parentes, eu sempre era o seu assunto favorito e ele se orgulhava imensamente de quem eu era e de tudo que eu era capaz de fazer.

Ele nunca tinha me dito nada disso. Eu cheguei a achar que ele tinha ido embora sem eu ter lhe dado algo para se orgulhar, pelo menos no sentido tradicional. Eu não tive filhos, não casei, não fiz nada como todas as outras filhas costumam fazer, e eu nem pretendia. Eu achava que ele precisa dos netos e do genro e na verdade meu pai só precisava de mim.

Você vai querer sentir saudades

Uma das coisas que me deixa mais dividida no momento é a saudade. Dói pensar no meu pai, dói ver o vazio que ele deixou, dói ouvir nossas músicas, assistir nossos filmes, contar suas piadas. Sonhar com ele é como tomar um soco no estômago, dói, me tira o ar e o equilíbrio.

Mas eu morro de medo de parar de me sentir assim, de parar de sentir tanta saudade. Eu morro de medo de me acostumar a viver sem meu pai, de não ver mais ele em tudo que faço e em tudo que eu sou.

A saudade mantém ele presente no meu dia a dia e ela pode até doer, mas eu prefiro ter ele comigo a todo momento a ter que viver em um mundo em que ele não existe mais.

 

As melhores palavras para encerrar esse post já haviam sido publicadas no meu Facebook muito antes de eu imaginar que escreveria tudo isso:

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Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

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