Porque eu raspei meu cabelo

Quando eu tinha uns 15 ou 16 anos eu conheci uma menina super descolada de cabelo raspado e fiquei encantada, esse momento coincidiu com uma tia amadíssima ter raspado o cabelo por causa da quimioterapia. Decidi unir o estilo ao amor, raspei o cabelo e no mesmo dia apareci na casa dela para mostrar que ser careca era lindo, era moderno, era estiloso e acima de tudo, que era super feminino, conceito que fica confuso em uma paciente que passo por mastectomia e naquele momento tinha perdido as tão amadas e cuidadas madeixas.

Isso tudo me marcou muito e fez com que essa experiência fosse além da vaidade.

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Vocês tem acompanhado a transformação pessoal pela qual eu venho passando, inclusive esse é um fator que tem tornado O Cabide em um espaço com mais identidade, já que eu venho tentando cada vez mais dividir minhas conquistas e minhas aflições com vocês.

Todo o processo de aceitação e libertação pelo qual eu passei com o meu peso poderia ter sido o suficiente para eu me encontrar, mas eu continuava inquieta com a minha aparência, principalmente por achar que eu não conseguia expressar o quanto tudo aquilo era verdadeiro para mim, o quanto estar longe de padrões de beleza e ter aprendido o valor de ser como eu sou agora, e tudo o que se passou na minha vida para me trazer até aqui, era transformador.

Eu cheguei a achar que estava fácil demais me sentir bonita sendo gorda (algo que eu considerava impossível até então), eu tinha recursos para criar uma imagem atraente para mim mesma e para os outros. Roupas bacanas e uma maquiagem legal são grandes ferramentas quando você está tentando aceitar uma mudança tão significativa, como uma pessoa ligada à moda eu tinha acesso a ambos.

Eu queria que a minha aparência fosse mais vulnerável, eu precisava sentir que estava causando algum impacto, principalmente na forma como eu me via. Daí eu esbarrei com essa foto no Pinterest:

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Foi aí que eu pensei no quanto meu cabelo estava me incomodando nos últimos tempos e o quanto ele me deixava insatisfeita. Além disso, por causa dos remédios que tomo, vivo lutando contra uma dermatite que deixou meu couro cabeludo ultra sensível e todo machucado. Também foi aí que eu pensei que eu não queria mais o meu cabelo.

Mas isso não foi o suficiente.

Acho que ninguém decide raspar o cabelo assim, de uma hora para outra. Eu demorei algumas semanas para me acostumar com a ideia e com tudo aquilo que poderia significar para mim. Daí esse vídeo apareceu no meu feed no Facebook:

E foi assim, questionando a importância que o cabelo tem para a mulher e como abrir mão dele é desafiar mais um padrão de feminilidade imposto pela sociedade que eu tomei minha decisão.

Se meu peso não me define, meu cabelo também não deveria me definir.

Em casa mesmo, com a minha mãe e meus cachorros bagunçando as madeixas que caiam ao meu redor, raspei meu cabelo novamente, 15 anos depois da primeira vez. Não ficou perfeito, fiz com uma máquina caseira super antiga, mas não me aguentei e logo postei a primeira selfie careca:

Uma foto publicada por O Cabide (@ocabide) em

Me desapegar veio naturalmente, comecei cortando o cabelo aos poucos e quanto mais eu cortava, mais natural aquilo tudo parecia. Eu me olhava no espelho e enxergava exatamente o que eu queria enxergar. Tanto que eu só percebi que iria precisar de coragem parar raspar o cabelo depois que já tinha raspado.

O feedback que recebi dos meus leitores e amigos foi maravilhoso, até a família que é um pouco mais conservadora gostou de me ver careca. Mas ainda assim acho importante ressaltar algumas coisas:

Não, eu não surtei.

Não, eu não vou usar perucas.

Não me interessa como o meu cabelo vai crescer depois.

Não, eu não tenho que usar brincões e batom para parecer feminina, essas são escolhas que faço com base no que eu quero vestir, não na quantidade de cabelo que tenho na minha cabeça.

Eu só vou deixar meu cabelo crescer quando eu não estiver mais afim de raspar.

Fiquei muito feliz com os elogios que recebi, mas continuaria raspando mesmo que ninguém tivesse gostado.

Não, eu não raspei o cabelo para “aparecer”.

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Esse ano foi marcado por mudanças. Me aceitar por fora tem sido essencial para me aceitar por dentro, com todos os desafios e limitações que estão no meu caminho. E eu estou amando!

 

Seja livre, nem que seja só das coisas que você impõe a si mesmo.

 

*imagens: reprodução

** a foto no topo do post é Ruth Bell, que está ganhando cada vez mais espaço no mundo da moda com sua carinha de emburrada e a cabeça raspada (seria ela minha alma gêmea?)

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

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