Início de carreira

Na nossa poltrona está sentada a estilista Gladys Maria, formada em Design de Moda pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, que se propôs a responder para O Cabide algumas perguntas que exemplifiquem a trajetória de uma estudante de moda até a sua formação e a busca por um lugar no mercado.

O Cabide: Como foi a sua vida universitária? Estágios? Projetos?

Gladys: Eu entrei na faculdade logo que terminei o colegial por pressão dos meus pais, até então eu não tinha decidido o que eu gostava realmente e acabei optando por Design de Moda pelo simples fato de gostar de costurar. Quando comecei o curso vi que foi a melhor escolha, pois abriu a minha mente tanto na questão criativa como técnica.

No meu estágio eu já caí logo na área de estilo, aonde durante um ano fui assistente, assessorando dois estilistas de uma marca feminina. Lá eu participava de todos os processos de pesquisa de tema, de tendências, criação e desenvolvimento de estampas, compra de tecidos e aviamentos, ficha técnica e prova de roupa. O estágio foi fundamental na minha formação por que com ele eu comecei a entender como tudo funciona, não era apenas teoria como na faculdade.

Fiquei por mais um ano trabalhando na mesma marca aonde tive a oportunidade de fazer também uma coleção de moda infantil.

O Cabide: Qual foi o tema do seu trabalho de conclusão de curso?

Gladys: Fiz uma coleção com o tema  ‘Música para Vestir’, aonde abordei a complexidade de transformar uma vibração/textura sonora em visual. A pesquisa foi focada na música contemporânea de Koellreutter (compositor alemão que veio para o Brasil e se tornou um dos mais influentes compositores). Ele criou partituras alternativas aonde era possível criar várias composições a partir da mesma, que era composta de signos planimétricos simbolizados pelo círculo, quadrado e triângulo que utilizei como referência nos recortes das peças e detalhes, já as texturas sonoras eu demonstrei com a mistura de interferências nos tecidos como o ponto paraguay por exemplo.

partitura alternativa

partitura alternativa

ponto paraguay desconstruído

ponto paraguay desconstruído

O trabalho final foi o mais difícil para mim, pois além de toda a pesquisa eu mesma costurei 90% das peças, coisa bem rara entre os estudantes de moda. Eu dediquei o último ano inteiro só para o trabalho final, mas valeu a pena todo o esforço e a dificuldade.

O Cabide: Há quanto tempo você está formada?

Gladys: Desde 2008.

O Cabide: Atualmente trabalha na área de moda?

Gladys: Desde que me formei tive apenas esse emprego fixo que comentei. Fora isso, sempre tive projetos pessoais de costura, criando minhas peças a partir de peças que já existiam ou de tecidos que provavelmente iriam para o lixo. Mantenho um brechó online na minha página do Facebook com peças novas (feitas por mim) e usadas. Eu comecei as vendas com um blog, mas nunca tive muito resultado, decidi então montar a venda pelo Facebook porque além de ter mais contatos o fato de serem pessoas conhecidas me agrada mais.

O Cabide: Como foi para você participar do Fashion Mob e o que acha desse tipo de oportunidade para novos estilistas?

Gladys: Me envolvi com a ideia de fazer outra coleção quando o evento surgiu no ano passado, até então o meu maior envolvimento com a Casa de Criadores tinha sido fotografar o backstage com câmeras analógicas (comecei na 24ª edição e não perdi uma edição desde então). No Fashion Mob apresentei uma coleção a partir de amostras de tapeçaria, com o tema ‘Amostras’. Sem muito apego ao tema em si, apenas com a idéia de mostrar que peças feitas com tecido de tapeçaria podem ser usadas sem levar a cafonice que o ‘reaproveitamento’ e ‘reciclagem’ carregam.  E já estou fazendo a coleção para a 2ª edição que rola esse ano com a mesma ideia em mente, só que mais elaborada e madura.

Dos poucos projetos para novos estilistas acredito que o melhor seja o Ponto Zero, também da Casa de Criadores. Acho que é o mais bem feito e o que mais apoia o estilista. Tem o Rio Moda Hype que sempre foi um projeto que me chamou a atenção, mas este ano quando eu li o regulamento logo perdi o interesse de tantos erros que havia na escrita (a inscrição foi prorrogada, quem não liga pra erros de regulamento ainda dá tempo de se inscrever).

Eu optei mesmo pelo Fashion Mob por ele ser o mais ‘sem regras’ de todos, nele não precisa de mil justificativas e todos podem participar, acho mais democrático.
O Cabide: Quais projetos tem participado?
Gladys: Esse ano me inscrevi no projeto Lycra Future Designers que nesta edição foi focado em jeans, mas acabei não ficando entre os finalistas, o look que criei para o concurso foi o ‘Pétalas de Dália’ e meu tema  era ‘Substância Botânica’, provável tema que eu vou abordar no Fashion Mob agregado as amostras de tapeçaria.  Além disso, fui convidada por meus amigos do Laboratório de Vivências (http://laboratoriodevivencias.blogspot.com/) a entrar para um projeto de cinema e teatro, aonde eu faço o figurino e também participo de alguns vídeos. O projeto ainda está em criação e será executado em um centro cultural do bairro Serraria em Diadema (Grande São Paulo). Por enquanto só temos dois vídeos (que estão passando por processo de edição) e algumas peças.

ilustração pétalas de dália

Ilustração ‘Pétalas de Dália’

projeto serraria

projeto Serraria

O Cabide: Descobrimos o trabalho desse promissora estilista através do Flickr, lá você mostra vários exemplos de belas ilustrações. Conte um pouco mais sobre elas.

Gladys: Eu nunca faço croqui de nada que crio, sempre pego o tecido e já saio cortando tudo que nem louca (só fazia na faculdade porque eu era obrigada), até que no ano passado eu senti a necessidade de ter algo ilustrado para maior entendimento das pessoas, foi quando comecei as ilustrações que são feitas a mão e pintadas no Photoshop ou com aquarela. Depois que eu desenho sempre digitalizo com flores ou folhas, que eu descobri um dia por acaso e acabou virando uma paixãozinha minha (que eu acabei levando para a fotografia da última edição da Casa de Criadores, no desfile da Karin Feller).

desfile karin feller

A estilista deixou um conselho para quem pretende entrar para a indústria da moda:

“Quero dizer para quem pensa em seguir na moda que ela é realmente para quem ama, e não apenas para quem gosta de fazer compras. Você tem que se dedicar e saber fazer tudo, colocar a mão na tesoura e fazer valer a pena.”

Para saber mais sobre a Gladys visite:
http://www.flickr.com/gladysmaria_

*imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

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