O meu all star azul

Eu lembro claramente do que era moda quando eu estava no ensino fundamental:

As Patricinhas de Beverly Hills

Minissaia plissada xadrez com meias 3/4;

O elenco da primeira temporada de Malhação (1995)

A novela Malhação tinha acabado de estrear e fez com que a moda fitness fosse parar nas ruas, logo, todas as meninas usavam leggings e um meião de ginástica no lugar do uniforme;
Se você era alguém relevante tinha mechas loiras e bem marcadas no cabelo;

Quem lembra das All Saints?

Moletons oversized combinados com Converse de cano alto (que naquela época chamávamos de All Star) deixavam avisado que você curtia rock e passava o intervalo com a rodinha que acompanhava o menino que sabia tocar Legião Urbana no violão;

Jovens Bruxas (The Craft)
Fairuza Balk 4evah 🖤

Mas o Keds, que era bem mais caro, também era hit independente da sua “tribo”, tudo dependeria da sua escolha de cor e/ou estampa,

A não ser que você fosse fã do recém-lançado Jovens Bruxas e tenha aderido ao estilo gótico.

Sabe porquê eu lembro de todas essas coisas com tanta clareza? Porque eu não tive nenhuma delas.

A época em que eu estava desenvolvendo meu estilo pessoal coincidiu com uma época de instabilidade financeira para a minha família e comprar roupas descoladas não era uma prioridade.

Eu passei anos pensando nas roupas que eu não tinha, mas com uns 13 para 14 anos tive minha chance de mudar esse quadro. A situação aqui em casa melhoro bastante e no meu aniversário ganhei R$200 da minha mãe para comprar o que eu quisesse (quem é da época em que essa quantia valia muito?).

Esse era meu momento, finalmente teria roupas iguais as das meninas na escola, finalmente não me sentiria tão awkward e finalmente seria popular por um motivo que não fosse meu jeito estranho.

Mas quando eu estava nas lojas fazendo compras com a minha mãe, eu percebi que eu não queria nenhuma daquelas coisas de verdade, que nada daquilo me deixava feliz ou satisfeita.

Acabei usando essa chance para finalmente vestir algo em que eu me sentiria bem. A minha compra consistiu em uma jardineira oversized, uma legging metalizada, um converse azul turquesa e uma mochila vermelha.

Olhando para trás e analisando esse momento com cuidado, vejo que sempre tive uma relação única com a moda, porém, também sempre achei que deveria me adequar mais ao que pessoas esperavam de mim. Passei a adolescência toda e a maior parte do início da minha vida adulta lutando contra minha a aparência, porque eu queria ter aquela sensação de pertencimento e achava que para isso deveria me vestir como as pessoas ao meu redor, que era muito diferente do que como eu realmente  queria vestir.

Em 2013 iniciei um novo tratamento para o transtorno bipolar, foi difícil, mas me trouxe uma vida estável e cheia de conquistas. Como nada é perfeito, o tratamento me fez engordar, 20, 30, 40, 50 quilos até chegar no peso em que estou hoje. Eu poderia lutar contra isso (e eu até lutei por um tempo) ou poderia aceitar. Decidi aceitar, afinal meu peso e as marcas no meu corpo contavam uma história incrível de sobrevivência.

No processo de aceitação acabei me conhecendo de uma forma que eu nunca imaginava. Minha relação com a moda voltou a se assemelhar às experiências da menina magricela de cabelos curtos da década de 1990, e assim como naquele momento, eu optei por expressá-la. Foi assim que meu guarda-roupa ganhou tantas cores, tantas texturas e volumes. O principal critério para escolher algo para vestir é “Essa roupa vai mostrar quem eu realmente sou?”, se a resposta for não, não uso! Além disso eu tenho guiado meu estilo de forma a equilibrar a minha personalidade com a forma como me apresento. Eu sou introvertida e muito intensa, o cabelo cor de rosa ou um top prateado lembram a mim mesma, e ao mundo, que eu também carrego leveza e humor.

Graças a essa vivência hoje sou a melhor versão de mim! Ser gorda fez com que eu fosse a mulher que eu sempre quis ser! ❤️

*imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Amigos que nunca foram os melhores

Eu estou longe de ganhar o prêmio de amiga do ano. O dia a dia é corrido e nem sempre consigo tempo para cuidar das minhas amizades. Como sou uma pessoa ciente de que a vida de quase todo mundo é corrida, também não cobro essa constância de ninguém.

Tenho alguns poucos bons amigos que sei que sempre vou poder contar na hora do aperto e no final das contas é isso que importa, né?

Mas no decorrer da vida acabamos conhecendo inúmeras pessoas que acabamos acreditar ser aquele alguém que vai mudar nossa postura com relação à convívio social, no s ensinar mais sobre o que realmente é amizade e literalmente vai nos fazer sentir como se estivesse vivendo em um episódio de Friends. Mas muitas vezes  acaba não sendo bem assim, né?

Esse são 5 tipos de amigos que não foram os melhores:

Canceriano

Esse é aquele tipo de amigo que nunca vai querer te ver sofrendo, afinal de contas só ele sofre, só a vida dele é difícil, se vocês um dia discutirem sobre qualquer coisa, mesmo que seja a cor do céu, o amigo canceriano vai jogar isso na sua cara, porque ele não apenas guarda o rancor, ele acumula.

É uma bilada, Cino!

Esse amigo sempre te procura, mas nunca é para saber de você. Sempre te chama para sair, mas não pergunta onde você quer ir. Sempre precisa desabafar, mas se você faz o mesmo “é drama”.
Esse amigo nunca te elogia, mas cobra ser elogiado.
Nunca cuida de você, mas exige ser cuidado.
Não reconhece seus esforços como amiga ou como ser humano.
E por último, mas não menos importante, é manipulador (inclusive foi assim que você caiu nessa roubada).

With benefits

Esse é aquele amigo que você conhece por acaso e desde a primeira cerveja já sente que vai ser seu bff. Você quer estar com essa pessoa o tempo todo e lembra dela em tudo que faz. Você começa a falar sobre esse amigo para todo mundo, até o dia em que alguém pergunta: “Vocês estão juntos desde quando?”. E você se depara com um fato que esteve na sua frente o tempo todo e de alguma forma você ignorou até agora, não era amizade, era crush!

Amigo do amigo

É aquela amizade maneiríssima que  você através de um outro amigo. Vocês têm muito em comum e vão dividir muitos momentos bacanas. Até você se afastar da pessoa que a trouxe para o seu convívio, seja por uma mudança, viagem ou simplesmente porque vocês estão seguindo caminhos diferentes.

Não amigo

Esse, na verdade, é um bom amigo, te faz bem, te ajuda a amadurecer, segura tua mão nas horas difíceis e vai estar do seu lado para momentos importantes. Até o dia que ele sumir. No começo você não percebe, mas com o passar do tempo nota que vocês só se encontram quando você o procura. Então você decide parar de procurá-lo e mais de um ano se passou e o tal amigo continuou MIA. Você se questiona se fez algo errado, se suas vivências não são pesadas demais para outros lidarem. Mas a verdade é que, se esse realmente é o caso, então a amizade nunca existiu de verdade. Mas vocês sempre terão a lembrança de tudo que compartilharam.
Zueiras à parte, sempre falamos muito sobre relacionamentos afetivos que são tóxicos, mas esquecemos que amizades também podem ser tóxicas, também tem um grande impacto na vida das pessoas e nos seus futuros relacionamentos. Se estiver acontecendo com você, procure alguém de confiança para desabafar e se afaste dessa pessoa.
Parece uma atitude egoísta, mas você deve se colocar em primeiro lugar e priorizar a sua estabilidade emocional. As amizades tóxicas são extremamente influentes e nós acabamos não conseguindo sair desse ciclo mesmo que estejamos desgastados, daí acabamos estressados e deprimidos.
*imagens: reprodução
Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Eu, mulher, e a representação na mídia

Na última sexta feira (07/10) fui surpreendida por um convite maravilhoso para participar do debate “Eu, mulher e a representação na mídia” do evento Artemicine, promovido pela ONG Artemis.

Fiquei super empolgada, não só por ter acompanhado o trabalho incrível da Artemis na campanha #tambéméviolência, feita em parceria com a marca de cosméticos Lush, mas porque eu realmente acredito que são em espaços como esse que surgem ideias que nos ajudam a transformar o mundo para mulheres em todos os tipos de condições, inclusive nós, que somos gordas.

Antes de falar sobre tudo o que rolou por lá, quero falar um pouco sobre o Artemicine, que ainda rola até o dia 13/10.

Trata-se da 1ª mostra de cinema da Artemis, onde seis dias de exibição de filmes, curtas e séries são combinados com diálogos que abordam temas que absolutamente devem ser debatidos à exaustão sobre as violências as quais somos submetidas diariamente simplesmente por sermos mulheres.

A mostra começou no dia de 01/10 e até agora a programação contou com:

  • Eu, mulher, e os novos rumos – 01/10

Com a presença de Fernanda Correia e Madalena Menezes do coletivo Nós, Madalenas; Marcella Datri, Ana Cavalcanti, Laís Teixeira e Gabi Santana da Equipe do curta Ser (HUMANO) e Rosana Urbes, ilustradora e animadora da RP Animation Films. Com mediação de Joyce Pais, jornalista e editora chefe do portal Cinemascope.

E a exibição de 3 minutos, Ser (HUMANO),  Guida e Mucamas.

No Cine Segall.

  • Eu, mulher, e do que tive que abrir mão (ou Eu, Mulher, e o que tive que conquistar) – 04/10

Com a presença de Gabriela Cunha Ferraz, advogada e mestre em Direitos Humanos; Maria Ileana Faguaga Iglesias, afrocubana, afrofeminista, ativista, antropóloga, historiadora, jornalista e pesquisadora; Ane Sarinara da Coletiva Luana Barbosa, professora e idealizadora do projeto Twerk de Minas e Giselle Cristina dos Santos do Instituto Locomotiva, do Coletivo Acampamento de feminisno interseccional e da organização da festa Don’t Touch My Hair. Com mediação de Angélica Kalil, roteirista e diretora do canal “Você é feminista e não sabe”.

E a exibição de Projeto de vidas refugiadas e Pariah.

No Cinusp Paulo Emílio

  • Eu, mulher, e a violência sexual – 06/10

Com a presença de Giovana Zimermann, artista visual. cineasta e pesquisadora e coordenação de Catharina Strobel, editora e produtora em Strada Filmes e ativista pelo direito das mulheres na Artemis.

E a exibição de BranCURA e Brave Miss Wolrd.

No Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.

E assim chegamos ao evento em que participei no sábado (08/10), como vocês já viram também contou com a presença de Lívia Perez, da produtora Doctela; Carmen Lúcia Brandão Zafalon, psicanalista e psicológa hospitalar e com a mediação de Shimenny Moura dos Santos, que é diretora Administrativo Financeira da Artemis.

Primeiro tivemos a exibição do curta “Quem matou Eloá?”, que mostra o impacto que a cobertura da mídia teve no assassinato de uma menina de quinze anos, após ser mantida em cárcere privado por seu ex-namorado durante 100 horas.

Para mim o curta foi um soco no estômago! Eu sou de Santo André, cidade onde aconteceu o assassinato, e acompanhei com bastante intensidade toda a cobertura sensacionalista e perigosa feita pela imprensa durante o sequestro. Mas nunca tinha percebido o quanto eles haviam feito com que Eloá, a vítima que ficou presa e apanhou durante quatro dias, fosse completamente invisível e irrelevante. Toda a cobertura foi voltada para dizer que Lindemberg, o assassino, era um cara legal e que tudo aquilo não passava de uma crise amorosa.

Eloá morreu sem ninguém mencionar quanta resiliência essa menina teve para se recusar a voltar com o namorado. E que mesmo com uma arma apontada para si, resistiu a violência com uma força que poderia servir como exemplo, mas que jamais foi reconhecida.

Foi ela quem morreu, mas a única história que foi contada, foi a de Lindemberg.

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Na sequência assistimos aos 2 primeiros episódios da série My Mad Fat Diary, ambientada na década 1990 e que conta a história de Rae Earl, uma adolescente gorda que luta para se encaixar e lidar com as questões da adolescência após sair de um hospital psiquiátrico onde tratava um transtorno alimentar.

Essa série é extremamente importante dentro de um diálogo que fala sobre representação, até porque é nela que vimos algo raríssimo na tv e no cinema: uma protagonista gorda, que lida com questões reais relacionadas a autoimagem, sem humor apelativo, sem eufemismos, sem condescendência.

*Fotos do Snapchat: ocabide

Começamos o debate traçando um paralelo entre a violência cometida pela imprensa que ignorou quem era Eloá e a mídia que viabiliza a gordofobia diariamente com chamadas apelativas, patologização e perpetuação de padrões.

Questionamos e problematizamos o papel da mídia dentro de uma cultura que faz com as mulheres que são vítimas de todo tipo de violência sofram com o silenciamento e o apagamento não só na forma como essa violência é cometida, mas como ela é retratada.

Falamos sobre a importância do fim da rivalidade feminina e sobre a importância da empatia entre mulheres, pois acreditamos que esse seja um passo importantíssimo para ocuparmos os espaços que nos foram tomados. Juntas podemos muito mais!

*Fotos do Snapchat: ocabide

E quando falamos sobre como enfrentar a gordofobia, falamos sobre autoestima, acessibilidade, saúde mental, mercado de trabalho, de onde surgiram os padrões estéticos que nos são impostos hoje, sobre o impacto do movimento de blogueiras e vlogueiras na vida das mulheres que acompanham esse trabalho e usam esse tipo de conteúdo como apoio em seus próprios processos de aceitação.

Por fim falamos sobre representatividade além do mercado da moda e sobre a importância de nos reapropriarmos dos nossos corpos e de nossas histórias, afinal esse é um dos caminhos para derrubar esse preconceito.

 

Fiquei muito feliz por ter estado presente para esse bate papo, experiências assim fazem a gente crescer, alimentam e transformam em incêndio aquela faísca que nos faz brigar todos os dias por um mundo mais justo para mulheres.

*Imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

A nudez da mulher gorda

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Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Trintão

Quem disse que completar 30 anos é um grande marco em sua vida, mentiu.

A vida já é complicada demais para que nossos marcos estejam condicionados a idade.

Você não é uma bomba relógio, desliga o timer e planeje a sua vida com calma. O mundo não vai desabar se você não for mãe, esposa e CEO até os 30.

Estou prestes a completar 31 anos (dia 20/08, aguardo presentes ❤️) e minha vida teve tantos plots twists, e foi tão instável, que nunca atingi nenhum dos marcos tradicionais. Sou bipolar e com os altos e baixos da minha doença, estudar é difícil, ter relacionamentos é um drama e uma carreira sólida é mais que um desafio.

Eu poderia me sentir derrotada, e realmente foi assim que me senti por muito tempo. Todos os planos que fiz para minha vida quando era mais nova não deram certo, aliás tive que aprender a duras penas que uma vida como a minha não pode ser planejada, e que lidar com a culpa e a sensação de fracasso que isso causava quase me derrubou e foi motivo para muitas crises de ansiedade.

Eu só percebi de verdade que não dá para ter controle sobre a nossa vida, quando meu pai faleceu inesperadamente. É clichê, eu sei, mas a gente realmente só vê o quanto a vida é frágil quando ela acaba diante dos nossos olhos.

Ainda assim, essa lição não mudou minha condição, não fez com que tudo ficasse mais fácil e não fez com que eu magicamente tivesse estrutura para mudar minha vida. Mas fez com que eu mudasse minhas prioridades, e parar de me preocupar em atingir “pontos altos” me fez começar a aceitar e compreender meus medos e limitações. Foi assim que finalmente pude ver que o grande marco da minha vida não foi um emprego ou uma viagem, o meu grande marco foi sobreviver a mim mesma e chegar até aqui inteira e disposta para seguir em frente.

Sucesso não tem um só significado e não tem receita. Não se esqueça que estudar é um privilégio, carreira e filhos são uma escolha e relacionamentos são para deixar a gente mais feliz. Nada disso é obrigatório, pare de se pressionar!

Assim como a minha vida não coube nos moldes tradicionais, a sua pode não caber, e não há nada de errado nisso.

Não tenha medo do fracasso e não tenha medo de começar de novo, a vida não tem ordem certa para acontecer.

*imagem: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.