A nudez da mulher gorda

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Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Trintão

Quem disse que completar 30 anos é um grande marco em sua vida, mentiu.

A vida já é complicada demais para que nossos marcos estejam condicionados a idade.

Você não é uma bomba relógio, desliga o timer e planeje a sua vida com calma. O mundo não vai desabar se você não for mãe, esposa e CEO até os 30.

Estou prestes a completar 31 anos (dia 20/08, aguardo presentes ❤️) e minha vida teve tantos plots twists, e foi tão instável, que nunca atingi nenhum dos marcos tradicionais. Sou bipolar e com os altos e baixos da minha doença, estudar é difícil, ter relacionamentos é um drama e uma carreira sólida é mais que um desafio.

Eu poderia me sentir derrotada, e realmente foi assim que me senti por muito tempo. Todos os planos que fiz para minha vida quando era mais nova não deram certo, aliás tive que aprender a duras penas que uma vida como a minha não pode ser planejada, e que lidar com a culpa e a sensação de fracasso que isso causava quase me derrubou e foi motivo para muitas crises de ansiedade.

Eu só percebi de verdade que não dá para ter controle sobre a nossa vida, quando meu pai faleceu inesperadamente. É clichê, eu sei, mas a gente realmente só vê o quanto a vida é frágil quando ela acaba diante dos nossos olhos.

Ainda assim, essa lição não mudou minha condição, não fez com que tudo ficasse mais fácil e não fez com que eu magicamente tivesse estrutura para mudar minha vida. Mas fez com que eu mudasse minhas prioridades, e parar de me preocupar em atingir “pontos altos” me fez começar a aceitar e compreender meus medos e limitações. Foi assim que finalmente pude ver que o grande marco da minha vida não foi um emprego ou uma viagem, o meu grande marco foi sobreviver a mim mesma e chegar até aqui inteira e disposta para seguir em frente.

Sucesso não tem um só significado e não tem receita. Não se esqueça que estudar é um privilégio, carreira e filhos são uma escolha e relacionamentos são para deixar a gente mais feliz. Nada disso é obrigatório, pare de se pressionar!

Assim como a minha vida não coube nos moldes tradicionais, a sua pode não caber, e não há nada de errado nisso.

Não tenha medo do fracasso e não tenha medo de começar de novo, a vida não tem ordem certa para acontecer.

*imagem: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Mulheres gordas também transam

Quando se fala da sexualidade da mulher gorda na internet o resultado é fetichismo e pornografia.

Quando se fala da sexualidade da mulher gorda em uma conversa casual é comum ouvir coisas como: “É mais fácil transar com mulheres gordas porque elas são desesperadas”, “Mulheres gordas se dedicam mais no sexo oral porque querem te convencer de que vale a pena transar com elas” ou “Transo com ‘gordinhas’ para praticar e ficar bom de cama para quem realmente merece”.

E quando é a vez do TV ou do cinema falar sobre a sexualidade da mulher gorda, nossa libido é vista como algo cômico, digno de deboche e ridicularização.

A sociedade como um todo não enxerga mulheres gordas como indivíduos completos e funcionais,  e nada na nossa cultura nos faz pensar que elas têm vidas sexuais que incluam experiências ricas e cheia de variação como as de qualquer outra pessoa.

Ou seja, não importa em qual situação, somos fetichizadas, objetificadas ou ignoradas, e inevitavelmente a nossa sexualidade sempre acaba parecendo um tabu.

artista desconhecido

A vida sexual da mulher gorda funciona como a de qualquer outra mulher, sentimos tesão, nos masturbamos, transamos em várias posições, temos fantasias, compramos brinquedinhos, usamos lingerie sensual e escolhemos nossos parceiros (ou parceiras) com base em afinidades e química.

Parem de tentar categorizar nossas transas, não existe “sexo gordo”!

Parem de presumir que por sermos gordas não somos confiantes, e não temos autoestima e controle sobre nossos corpos.

E parem de tentar enfiar (sem trocadilhos) o nosso tesão em moldes engessados e patriarcais, nosso corpo não existe para atender suas necessidades, nosso prazer não é condicionado por padrões estéticos e assim como qualquer outro ser humano, nós transamos para gozar.

 

*imagem: reprodução

 

 

 

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Não consigo parar de falar sobre isso

Na última semana uma garota de 16 anos foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro.

Fiquei sabendo na quarta-feira (25/05), quando um post foi compartilhado em um grupo, a notícia veio como um soco no estômago. Mais ainda porque, além dessas informações, li que foi feito um vídeo que expunha o corpo desacordado da vítima, e que além de tudo, mostrava sua vagina machucada e sangrando. Li também os comentários de quem compartilhou o vídeo no Twitter e o deboche diante de tamanha violência fez meu coração sangrar.

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Me prometi que jamais veria o vídeo, qualquer foto ou print relacionado. Apesar de muitos pensarem como eu (em evitar a exposição de uma mulher em tal situação), não demorou para que esse vídeo circulasse em outras redes e a vítima tivesse seu corpo nu, arrasado e humilhado, exposto para milhares de pessoas em todo o país.

Desde que li essa notícia não consegui pensar em nada além disso, não havia nada, nenhuma outra notícia que pudesse afastar de mim o misto de medo e preocupação que essa barbárie deixou.

Desde que li essa notícia não consigo parar de falar sobre isso, e não deveria.

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Não bastasse tanta violência, a vítima ainda vai ter que lidar com o julgamento de pessoas que buscam de alguma forma usar seu comportamento como justificativa para o ocorrido.

Se não usasse roupas curtas não, seria estuprada.
Se estivesse na igreja não seria, estuprada.
Se não fosse para a balada não seria, estuprada.

Trinta e três homens estupram uma jovem e é ela quem é julgada.

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A cada onze minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Não precisa procurar muito entre as notícias para ver que mulheres de todas as idades são estupradas em casa, no trabalho, na igreja, ma escola, na rua ou no metrô. Não existe um local sem medo, não existe sensação plena de segurança.

É muita loucura ficar pensando em coisas que uma mulher deve fazer para evitar o estupro, nós temos que falar sobre o estuprador, temos que falar sobre como a mulher é objetificada, sobre como a cultura machista da sociedade em que vivemos permite que violências como essa sejam impunes.

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Olhe ao seu redor, pense em quantas mulheres você conhece que já sofreram algum tipo de assédio.
Quantas mais vão ter que sofrer para lutarmos contra
Quantas mais vão chorar sozinhas?Quantas mais vão ser ridicularizadas por não aceitar?

Sabe porque essa notícia te deixa mal? Porque a vítima poderia ser você, e esse medo nos une.

Uma foto publicada por O Cabide (@ocabide) em

Somos irmãs e devemos lutar juntas.

Somos nós que vamos mudar essa cultura, somos nós que vamos encontrar formas de nos proteger e somos nós, unidas, que vamos inundar a internet, a mídia, o ministério público, as festas de família, os happy hours, a mesa de boteco e até a fila do pão, com denúncias.

Se você achava o feminismo chato antes, se prepare, nós mal começamos.

*imagens: reprodução

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.

Cadê a representatividade?

Eu gostaria de ter ficado surpresa quando eu vi um artigo no Buzzfeed falando sobre uma loja virtual que enfiou uma modelo petite (magra e de estrutura óssea pequena) em uma perna de um shorts plus size para apresentar a peça nem seu site, mas não fiquei.

Já estamos acostumadas a ver que marcas plus size não tem interesse em mostrar mulheres de tamanhos grandes usando suas roupas, mesmo que essas sejam suas consumidoras finais. Na verdade o que vemos essas marcas apresentando são modelos fora do padrão, longe de serem gordas, com cintura afinada e celulite alisada pela edição.

E isso já é uma merda, imaginem o quão repugnante é entrar em um site e ver produtos apresentados desta forma:

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E um exemplo do Aliexpress:

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Mas o mesmo artigo do Buzzfeed nos traz um silver lining, a estilista plus size Christina Ashman, responsável pela marca Interrobang, deu o troco com a mesma moeda e provou o quão ridículo e sem sentido é apresentar uma peça desta forma. Ela posou usando uma saia de tamanho pequeno em sua perna:

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E aí? Esse é um jeito válido de vender uma saia?

Pois é…

A imagem criada por Christina foi muito compartilhada e ganhou destaque no site Hello Giggles, o que nos traz esperança de que a nossa indignação chegue a alguma das marcas que teimam em insultar o poder de consumo do mercado plus size.

Quem trabalha com moda pode questionar a origem das peças e argumentar que esse tipo de confecção faz tudo com baixo orçamento, inclusive marketing, para diminuir gastos e baratear as peças. E eu, como pessoa formada em moda, que trabalhou em confecções no Brás e no Bom Retiro, vou dizer que NÃO JUSTIFICA.

*imagens: reprodução

**A imagem de destaque (no topo do post) é da Jes do The Militant Baker.

Fundadora e editora do O Cabide, formada em moda, fotógrafa iniciante, apaixonada por figurinos e história da moda. Futura jetsetter, feminista, gayzista, abortista, gorda, patrona do amor próprio e entusiasta da maquiagem para beleza e para a arte.